AFINAL, O QUE NÓS QUEREMOS?

Quando você é pequena, te ensinam a se comportar feito mocinha e sentar-se o tempo inteiro de pernas fechadas (ou cruzadas – o que não aprendi até hoje). Eu não entendia bem o porquê, até começar a pegar ônibus e lá vir um homem sentar ao meu lado com as pernas abertas e invadir o meu espaço. Eu também nunca entendi o fato de meus pais fazerem a mesma jornada de trabalho, minha mãe chegar em casa e ir direto para a cozinha enquanto meu pai ficava sentado no sofá assistindo Jornal Nacional. Não entedia o fato das pessoas perguntarem para minha mãe porque o enxoval da minha irmã era amarelo, e ela responder com um sorriso meio decepcionado que os médicos não conseguiram ver o sexo do bebe durante os ultrassons. 

Antes mesmo de nascer, já te ensinam que rosa é a cor certa para você, mas e eu, que sempre gostei de azul? 

Você até pode gostar de azul, Stéfhanie, mas isso não é coisa de menina. Coisa de menina é ter um quarto todo cor de rosa, não falar palavrão, andar somente com meninas, brincar apenas de boneca, sonhar em casar e ter filhos, não ir a bar (muito menos beber até cair...), ter uma carreira ok e fim. Isso é ser uma mulher. Linda, frágil, meiga, que fica em casa cozinhando, arrumando a casa para quando o esposo chegar do happy hour ou do futebol, estiver tudo arrumadinho, limpinho e você... Ah, você tem que estar cheirosa, com o cabelo arrumado, magra, com uma linda camisola. Se não depois não sabe o porquê dele ter te largado, né?! Bobinha.

Quando eu era mais nova, de fato, a opinião era um pouco limitada mesmo não concordando com a enorme discrepância de valores entre mulheres X homens, mas eu nunca me encaixei. Mesmo pequenininha já me sentia diferente em não concordar com a maioria, ''Mas mãe, porque tem que ser assim?'' Porque são coisas de menina nunca foi uma resposta para mim. 

Hoje, meu dia a dia é rodeado de mulheres de personalidades fortes, cada uma com suas particularidades na vida e no trabalho, amigas que conheço desde nossa época de "menininhas” e que hoje se tornaram mulheres fodas. Porque como já dizia Simone de Beauvoir "Não se nasce mulher, torna-se mulher". E neste mundo demasiadamente torto, nós temos que nos tornar a mulher que gostamos de ser, que queremos ser, diferente do que nossa família ou a sociedade ensinou.

Minha amiga que ama rosa e veste peças de roupas do setor juvenil, tornou-se uma mulher. Ela posta nudes, bebe cervejas, faz sexo casual, não quer se apaixonar, já gerenciou quase uma agencia de publicidade toda e escreve em um diário, sim, feito menininha (?). Pelo simples fato: é isso que ela quer

Eu falo palavrão mesmo sendo delicada, mando o cara do trabalho se foder quando ele fala do meu corpo e do meu cabelo. Eu bebo bebidas de homens, como homens – porque não existem bebidas só para eles. Eu quero sim casar, mas não sonho em ter filhos. Eu namoro há seis anos e isso não impede de fazer as coisas que tenho vontade. Posso ser delicadinha, vestir estampas de flores e passar batom, mas o que tem aqui dentro é muito mais que só um rostinho de menina, ou talvez seja sim de menina, mas menina forte. 

Porque sinônimo de fraquinha, frágil e singelo, não é menina, não é mulher. Ser mulher é ser forte sim, não tem sexo frágil. Ou tem, se a gente quiser. E o que tenho aqui é o que construí durante meus vinte e dois anos de vida – e construo cada dia mais. O que diferencia e completa todas essas mulheres incríveis que a gente vai encontrando pelo caminho. 

E quando nos perguntarem o que queremos, a resposta será simples: Nós só queremos ser mulheres sem ter que carregar o peso de viver da maneira que a gente quer. E se vestir do jeito que couber, falar o que vier, ser feliz sem se incomodar se é certo ou não.

Com todo direito, eu quero ser mulher.

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Bons ventos! 

33 comentários

  1. Amei o seu post :)
    Em breve farei o meu também
    http://fotografeumlivro.blogspot.com.br/

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    1. :D Obrigada, Fran.
      Eu li o seu e gostei muito também, me identifiquei com suas palavras.

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  2. LACRADORA! Parabens pelo textos. Por mais textos como esse pro mundo! Estamos precisando. Super parabens, eu curti muito teu texto mesmo. Feliz nosso dia pra vc! Beijos

    http://www.verdadeescrita.com/nao-eu-nao-sumi/

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    1. Lacradora é VOCÊ! Fico feliz em receber elogio seu porque amo tanto seus textos.

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  3. Excelente seu texto, Stéphanie!
    Precisamos parar de impor padrões de comportamento para as crianças.
    Beijo e um lindo dia!
    Sílvia

    (http://reflexoeseangustias.com)

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    1. Que sair dessa cultura de padrões seja cada vez mais frequente.
      Torço -e luto- por isso.

      Obrigada pela visita, Silvia!

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  4. De certa forma, nossos pais tentam nos nortear para o que são aceitaveis na sociedade em que estamos inseridos. Enquanto que o que eles ensinam não é uma obrigação, única verdade, ok. Eu mesmo fui uma menina muito das avessas usando camisetão de banda e moleton preto. usava calças masculinas e meus pais sempre aceitaram isso.
    Não entra na minha cabeça, que em um mundo globalizado e modernos, as pessoas queiram impor coisas como rosa para meninas, azul para menino.
    E a culpa é de quem? Nossa. HAHA
    Ahazou no texto!
    |Sorteio do Livro "Cartas de um escritor solitário |
    |‎Document Your Life | Fevereiro 2016 |
    | FB Page A Bela, não a Fera|

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    1. Sim, mas na verdade eles fazem isso porque já aprenderam com seus pais que isso é o certo. A sociedade já os preparou para pensar assim, e isso até hoje.
      Cabe a nós, a nova geração de mulheres pensantes e que lutam por seus direitos, mudar tudo isso. De pouquinho e pouquinho nós conquistamos mais aqui e acolá.

      Obrigada pela visita! ♥

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  5. Maravilhoso Stéfhanie! A gente pode e DEVE fazer o que quiser, independente das espectativas dos outros. Sempre!

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  6. Batendo palma aqui <3 <3
    Moça, arrepiei lendo seu texto :3
    Sou dessas também, nunca me conformei com essas coisas fofinhas e pseudo femininas criadas, seja pela sociedade ou pela publicidade. Esse esteriótipo de mulher que viveu e ainda vive na cabeça das pessoas é bizarro.
    Esses dias li um texto de um casal que estava sendo bombardeado com ofensas por não ter furado a orelha da filha recém nascida. Como assim não vai furar? Como vão saber que é menina? Que absurdo!
    Uma completa loucura. Essas coisas nunca entrarão na minha cabeça ¬¬
    Muito bom o texto, parabéns :3
    Bjoo :**
    Nerd de Pijama

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    1. Mas que horror, Carol! Não entendo, só porque ela é meninas os pais tem obrigação de furar? Mas a filha é de quem? A opinião é de quem? Difícil de entender essas pessoas viu.

      O que me deixa feliz é que não só a partir deste texto, mas em diversas conversas com amigos, eu percebo que estamos uma geração em que isso pode mudar.

      Obrigada pela visita!

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  7. Que post lindo, em pequenos detalhes da vida, lá está ele, enraizado até as últimas: o machismo. Infelizmente, muitas decisões são tomadas por nós e perdemos totalmente nossa liberdade quando nascemos mulher: temos medo de quase tudo, quase tudo é inapropriado. Que bom que cada vez mais temos consciência de que isso simplesmente não é "normal" e que temos que falar sobre isso. Muito bom teu texto <3 E essa ilustra do começo, que amorzinho


    Beijos
    Brilho de Aluguel

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    1. Exatamente! Até quando deixaremos de viver bem, livre e sem ter que ficar com medo e receio do que vestir, de como se portar, de como viver... Tudo isso para não causar impacto nenhum na sociedade e principalmente aos homens, tudo por conta desse machismo que nos cerca desde sempre.

      Fico feliz que tenha gostado do texto! Achei a ilustração bem fofa também, se encaixa muito bem ao texto! <3

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  8. "Minha amiga que ama rosa e veste peças de roupas do setor juvenil, tornou-se uma mulher. Ela posta nudes, bebe cervejas, faz sexo casual, não quer se apaixonar, já gerenciou quase uma agencia de publicidade toda e escreve em um diário, sim, feito menininha (?). Pelo simples fato: é isso que ela quer." EUZINHA! hahaha

    Você lacrou no texto, disse o que eu tento dizer todos os dias. Que possamos continuar sendo fodas, sempre do nosso jeitinho. Tô lendo um livro que fala bastante sobre empoderamento feminino, Capitolina, e tô adorando. Te empresto se quiser. Amo você!

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  9. Amei seu texto, porque é isso mesmo. Desde pequenas, somos ensinadas a seguir todas essas regras que limitam e diminuem a mulher e não nos deixam escolher nem ao menos se gostamos mais de rosa ou de azul.
    São textos como o seu que me fazem acreditar que a gente pode sim, mudar essa situação. Porque estamos cansadas disso tudo.
    Beijos
    Mari
    www.pequenosretalhos.com

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  10. Stéfhanie, que super texto, adorei! Fiquei muito feliz ao ver, esse ano, muitos textos como esse na minha timeline e entre os blogs que sigo. Parece que as mulheres estão acordando e falando sobre os problemas que permeiam suas vidas, parece que estamos ficando cada vez mais fortes, sabe? Não lembro desse movimento todo há uns anos. De fato, a gente pode ser o que quiser e não precisa explicar nem se justificar pra ninguém - se quiser gostar de azul, se quiser transar com todo mundo, se quiser casar e ter filhos, não importa. Não dá mais pra viver desse jeito, tendo que seguir uma cartilha pré-escrita antes mesmo de nascermos....

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  11. Simone de Beauvoir ♥
    E com licença, posso dizer o quanto você é lacradora bicha?
    Resumiu bem tudo o que temos de conviver desde que nascemos, como a cultura machista está impregnada desde os primeiros dias de vida da mulher.
    Enfim, como você disse, o negócio é que hoje vivemos rodeadas de mulheres poderosas e cheias de si. Girl power total!
    Feliz de ter lido o seu texto.

    Um beijo, Sté!

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  12. Sabe o que me deixa super feliz e esperançosa? Saber que neste momento muitas crianças estão sendo educadas com mais possibilidades, mais liberdade, mais escolhas. Não preciso ir muito longe: a vida das nossas avós pode ter sido incrivelmente machista, algo que hoje a gente pensa "como isso foi possível???" Sei que as pessoas ainda tem muito para mudar, mas só de perceber as mulheres tomando suas próprias iniciativas sem culpa é algo grandioso, sem medidas. Vivi momentos machistas quando criança/adolescente (e infelizmente até hoje) quando olho o passado percebo que hoje isso seria impensável para a pessoa que eu me tornei. Lindo e merecido post!

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  13. Escolhem nossa cor preferida, nosso estilo, nossos esporte (quando temos direito a um), nossos maridos... Eita sociedade difícil, não é mesmo? Parabéns pelo belíssimo texto. bjos

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  14. Adorei, sejamos certas para nós mesmas e não para essa sociedade cheia de regras sem sentido! Gostei muito mesmo do seu texto!
    Beijos!!
    Blog Amanda Hillerman

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  15. e o tanto que todo mundo quer se meter na nossa vida e escolhas né? vc tem que ser assim, gostar disso, fazer isso... amei seu texto. temos que ser o que quisermos e quando quisermos!! beeeijo :**

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  16. Eu também viviam perguntando essas coisas ): cresci com meu pai machista e me limitando muito, até que minha mãe o largou e nossa vida melhorou bastante <3

    bruna-morgan.blogspot.com

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  17. Sem palavras pra esse texto... Simplesmente maravilhoso! <3

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  18. reflexão necessária! <3
    eu tenho feito meu tcc sobre educação de meninas x meninos e tem sido muito gratificante. Espero que continuemos nessa linha de conquistas por mais liberdade individual e justiça coletiva <3

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    1. Que tema interessante, Jess. Existe uma discrepância gigantesca entre meninos x meninas, e aí sem perceber, nós já vamos construindo o machismo e a desigualdade. Vejo isso pelos meus tios, que tem dois filhos homens e uma menina. A minha prima tem que arrumar a casa inteira quando chega da escola enquanto meus dois primos se limitam somente em lavar a louça (com revezamento entre eles). É muito triste, perceber que o machismo reina em seus pequenos detalhes..

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  19. Que texto, lacrou <3
    Não tenho nada a acrescentar, só dizer que concordo com tudo o que foi dito e que nós, como sociedade, devemos parar de impor como o outro deve viver.
    Parabéns pelo texto!

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  20. Seu texto está lindo <3
    Belas palavras e amei a citação de Beauvoir, ela é um grande exemplo
    www.charme-se.com

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    1. Acredito que Beavouir será sempre um grande exemplo para nós! A mulher que nadou contra a corrente de sua época extremamente machista.

      Beijos ♥

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  21. Maravilhoso!!

    A gente cresce cercada de obrigações mas você fazendo ou não, algo AINDA estará errado. A mente das pessoas precisa mudar!

    Parabéns pelo texto! :)

    www.nossacancao.wordpress.com

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    1. Exatamente isso! O problema sempre será nosso, nunca na mente limitada de algumas pessoas.

      Obrigada pela visita Paloma! :)

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